Darwinismo & ideologia
Não sou muito adepto de utilizar esse espaço para publicar meus próprios artigos, mas acho conveniente publicar esse. Trata-se de um "super-post" que eu escrevi para o Orkut, num debate na comunidade "Evolucionismo versus Criacionismo". Acho que vale a pena ler... Críticas e sugestões são, como sempre, muito bem vindas!
Raul Marinho
Raul Marinho
Darwinismo & ideologia
Tenho participado de debates onde o assunto é: “A teoria evolucionista é uma mera teoria científica, ou tem implicações ideológicas? Se sim, quais?”. O assunto é controverso. Principalmente porque a principal ideologia associada ao darwinismo é o “darwinismo social” do início do século XX, cujo grande expoente foi Francis Galton (sobrinho-neto do próprio Darwin, aliás). Galton foi um homem brilhante em vários aspectos, principalmente na estatística. É dele o famoso “Problema de Galton”, das correlações estatísticas. Entretanto, quando Galton resolve aplicar o darwinismo a políticas sociais, é um desastre. Ele foi o pai da eugenia, um método para “aprimorar a raça humana”, que acabou sendo adotado como Política de Estado pela Alemanha de Hitler. Desde o fim da 2a Guerra, o “darwinismo social” e a eugenia são lembrados como um triste capítulo da história da humanidade. Atualmente, nenhum cientista ou intelectual de respeito leva o “darwinismo social” a sério.
Entretanto, a partir de meados da década de 1960, o darwinismo ressurgiu nas Ciências Sociais. Estudiosos da evolução do comportamento, como Hamilton e Trivers, municiados com as novas descobertas da genética e da teoria dos jogos, começaram a propor novas teses sobre comportamento animal (humano, inclusive). Em 1975, o entomologista Edward Wilson publica “Sociobiology”, que inaugura uma nova ciência, mezzo biológica, mezzo social. O raciocínio de Wilson é mais ou menos o seguinte. Se é lícito para a Biologia estudar o comportamento animal (numa Ciência chamada Etologia), e se o H.sapiens nada mais é do que uma espécie animal, também é lícito estudar o comportamento humano com as ferramentas da Biologia. Como o comportamento humano se caracteriza pela vida em grupo, o estudo das sociedades humanas também deveria ser assunto da Bilogia.
Evidentemente, os cientistas sociais de plantão detestaram essa abordagem. E com razão! A proposta do Wilson, se levada adiante, iria fazer com que as Ciências Sociais se tornassem uma sub-divisão de uma sub-divisão da Biologia (Biologia->Etologia->Etologia humana, ou Sociobilogia). Faz 30 anos que os debates começaram, e muita água ainda vai rolar debaixo da ponte quanto a isso. O problema é que esta abordagem darwinista das Ciências Sociais acabou sendo adotada pela Economia. Modelos comportamentais, modelados com ferramentas da teoria dos jogos, passaram a ser a grande estrela da micro-economia na década de 1980. Em 1994, John Nash, um dos pioneiros da Teoria dos Jogos, ganha o 1o Nobel da Economia Comportamental. De lá para cá, cerca de metade dos prêmio Nobel de Economia estiveram de alguma forma relacionados à Economia Comportamental.
Ao mesmo tempo, o modelo soviético ruiu. Os intelectuais de esquerda ficaram como baratas tontas depois da queda do muro de Berlim. Nos últimos 20 anos, o pensamento econômico se “endireitou” radicalmente, e surgiu o neoliberalismo. E os pensadores neoliberais tiveram, como grande referência teórica, a Economia Comportamental. Ao mesmo tempo, aplicações darwinistas são testadas pela Psicologia, gerando a Psicologia Evolutiva; pela Antropologia, o que faz surgir a Antropologia Evolutiva; e muitas outras Ciências passaram a abordar suas respectivas questões sob o ponto de vista evolutivo. O Direito é uma destas Ciências que, com o trabalho pioneiro da Dra. Margareth Gruter, desenvolve um extenso trabalho na aplicação do darwinismo ao Direito e à Economia. Vernon Smith, ganhador do Nobel de Economia de 2002, é uma estrela do Instituto Gruter.
Entretanto, apesar de muitos pensadores neoliberais adotarem abordagens evolutivas, o darwinismo não é uma teoria “de direita” por definição. O próprio Marx era um entusiasta do darwinismo. Na verdade, o darwinismo em si não é nem de direita nem de esquerda, ele nada mais é do que um conjunto de conhecimentos, que pode ser utilizado por quem quer que seja. Por isso, o darwinismo não é comprometido com a direita neo-liberal. Exemplo claro disso é o Bushinho, direitista neoliberal ferrenho e, ao mesmo tempo, anti-darwinista militante.
Se você for à Meca do anti-neoliberalismo, o Fórum Social Mundial, dificilmente vai encontrar algum intelectual de esquerda com propostas darwinistas. Mas isso não acontece porque o darwinismo é de direita, mas sim porque existe uma identificação dos neoliberais com ele. Esses pensadores neoliberais, como é o rótulo atribuído ao Francis Fukuyama, utilizam ferramentas da Biologia Evolutiva Comportamental, da Teoria dos Jogos, da Sociobiologia, da Psicologia Evolutiva, da Antropologia Evolutiva, e de outros conhecimentos derivados do darwinismo porque são estes os conhecimentos de ponta das Ciências Sociais atuais. Além disso, grande parte dos esquerdistas tem formação nas Ciências Sociais clássicas, ancoradas na hermenêutica, que ainda relutam em adotar a abordagem darwinista. Daí essa confusão sobre o darwinismo ser de direita.
No Brasil, temos ainda uma clara dominância hermenêutica nas Universidades. 99% do que se ensina e pesquisa em Ciências Sociais (excetuando-se a Economia) é de cunho hermeneuta. Mas existem hermenêutas de direita e de esquerda, ninguém seria tolo em afirmar que a hermenêutica seja comprometida com o neoliberalismo ou o socialismo. No darwinismo, esse equilíbrio não existe. A quase totalidade dos poucos intelectuais com viés darwinista são de direita. Por isso, têm-se a impressão de que o darwinismo é comprometido com a direita, quando o que ocorre é uma correlação circunstancial.
Concluindo: o darwinismo tem, sim, implicações ideológicas. Mas isso não significa que ele seja uma doutrina de direita ou neo-liberal. Seria como afirmar que a Física Nuclear é uma ciência comprometida com a política militar estadunidense... A Física Nuclear não é uma ciência de direita, é óbvio. Os EUA utilizaram o conhecimento em Física para construir suas bombas, mas a antiga URSS também o fez. E ambas potências nucleares tinham ideologias diametralmente opostas! O problema é que, atualmente, existe uma hegemonia estadunidense. Por mais que o Fórum de Caracas diga que “outro mundo é possível”, o fato é que a esmagadora maioria dos intelectuais se situa no eixo EUA-Europa Ocidental-Japão, e seriam considerados “de direita”, se esse rótulo ainda fizesse sentido. Esses intelectuais são os que se destacam, que ganham os Prêmios Nobel, e que se utilizam do darwinismo para embasar suas teses. Os intelectuais de esquerda abominam o darwinismo, mas... Bem, é um direito deles.
Tenho participado de debates onde o assunto é: “A teoria evolucionista é uma mera teoria científica, ou tem implicações ideológicas? Se sim, quais?”. O assunto é controverso. Principalmente porque a principal ideologia associada ao darwinismo é o “darwinismo social” do início do século XX, cujo grande expoente foi Francis Galton (sobrinho-neto do próprio Darwin, aliás). Galton foi um homem brilhante em vários aspectos, principalmente na estatística. É dele o famoso “Problema de Galton”, das correlações estatísticas. Entretanto, quando Galton resolve aplicar o darwinismo a políticas sociais, é um desastre. Ele foi o pai da eugenia, um método para “aprimorar a raça humana”, que acabou sendo adotado como Política de Estado pela Alemanha de Hitler. Desde o fim da 2a Guerra, o “darwinismo social” e a eugenia são lembrados como um triste capítulo da história da humanidade. Atualmente, nenhum cientista ou intelectual de respeito leva o “darwinismo social” a sério.
Entretanto, a partir de meados da década de 1960, o darwinismo ressurgiu nas Ciências Sociais. Estudiosos da evolução do comportamento, como Hamilton e Trivers, municiados com as novas descobertas da genética e da teoria dos jogos, começaram a propor novas teses sobre comportamento animal (humano, inclusive). Em 1975, o entomologista Edward Wilson publica “Sociobiology”, que inaugura uma nova ciência, mezzo biológica, mezzo social. O raciocínio de Wilson é mais ou menos o seguinte. Se é lícito para a Biologia estudar o comportamento animal (numa Ciência chamada Etologia), e se o H.sapiens nada mais é do que uma espécie animal, também é lícito estudar o comportamento humano com as ferramentas da Biologia. Como o comportamento humano se caracteriza pela vida em grupo, o estudo das sociedades humanas também deveria ser assunto da Bilogia.
Evidentemente, os cientistas sociais de plantão detestaram essa abordagem. E com razão! A proposta do Wilson, se levada adiante, iria fazer com que as Ciências Sociais se tornassem uma sub-divisão de uma sub-divisão da Biologia (Biologia->Etologia->Etologia humana, ou Sociobilogia). Faz 30 anos que os debates começaram, e muita água ainda vai rolar debaixo da ponte quanto a isso. O problema é que esta abordagem darwinista das Ciências Sociais acabou sendo adotada pela Economia. Modelos comportamentais, modelados com ferramentas da teoria dos jogos, passaram a ser a grande estrela da micro-economia na década de 1980. Em 1994, John Nash, um dos pioneiros da Teoria dos Jogos, ganha o 1o Nobel da Economia Comportamental. De lá para cá, cerca de metade dos prêmio Nobel de Economia estiveram de alguma forma relacionados à Economia Comportamental.
Ao mesmo tempo, o modelo soviético ruiu. Os intelectuais de esquerda ficaram como baratas tontas depois da queda do muro de Berlim. Nos últimos 20 anos, o pensamento econômico se “endireitou” radicalmente, e surgiu o neoliberalismo. E os pensadores neoliberais tiveram, como grande referência teórica, a Economia Comportamental. Ao mesmo tempo, aplicações darwinistas são testadas pela Psicologia, gerando a Psicologia Evolutiva; pela Antropologia, o que faz surgir a Antropologia Evolutiva; e muitas outras Ciências passaram a abordar suas respectivas questões sob o ponto de vista evolutivo. O Direito é uma destas Ciências que, com o trabalho pioneiro da Dra. Margareth Gruter, desenvolve um extenso trabalho na aplicação do darwinismo ao Direito e à Economia. Vernon Smith, ganhador do Nobel de Economia de 2002, é uma estrela do Instituto Gruter.
Entretanto, apesar de muitos pensadores neoliberais adotarem abordagens evolutivas, o darwinismo não é uma teoria “de direita” por definição. O próprio Marx era um entusiasta do darwinismo. Na verdade, o darwinismo em si não é nem de direita nem de esquerda, ele nada mais é do que um conjunto de conhecimentos, que pode ser utilizado por quem quer que seja. Por isso, o darwinismo não é comprometido com a direita neo-liberal. Exemplo claro disso é o Bushinho, direitista neoliberal ferrenho e, ao mesmo tempo, anti-darwinista militante.
Se você for à Meca do anti-neoliberalismo, o Fórum Social Mundial, dificilmente vai encontrar algum intelectual de esquerda com propostas darwinistas. Mas isso não acontece porque o darwinismo é de direita, mas sim porque existe uma identificação dos neoliberais com ele. Esses pensadores neoliberais, como é o rótulo atribuído ao Francis Fukuyama, utilizam ferramentas da Biologia Evolutiva Comportamental, da Teoria dos Jogos, da Sociobiologia, da Psicologia Evolutiva, da Antropologia Evolutiva, e de outros conhecimentos derivados do darwinismo porque são estes os conhecimentos de ponta das Ciências Sociais atuais. Além disso, grande parte dos esquerdistas tem formação nas Ciências Sociais clássicas, ancoradas na hermenêutica, que ainda relutam em adotar a abordagem darwinista. Daí essa confusão sobre o darwinismo ser de direita.
No Brasil, temos ainda uma clara dominância hermenêutica nas Universidades. 99% do que se ensina e pesquisa em Ciências Sociais (excetuando-se a Economia) é de cunho hermeneuta. Mas existem hermenêutas de direita e de esquerda, ninguém seria tolo em afirmar que a hermenêutica seja comprometida com o neoliberalismo ou o socialismo. No darwinismo, esse equilíbrio não existe. A quase totalidade dos poucos intelectuais com viés darwinista são de direita. Por isso, têm-se a impressão de que o darwinismo é comprometido com a direita, quando o que ocorre é uma correlação circunstancial.
Concluindo: o darwinismo tem, sim, implicações ideológicas. Mas isso não significa que ele seja uma doutrina de direita ou neo-liberal. Seria como afirmar que a Física Nuclear é uma ciência comprometida com a política militar estadunidense... A Física Nuclear não é uma ciência de direita, é óbvio. Os EUA utilizaram o conhecimento em Física para construir suas bombas, mas a antiga URSS também o fez. E ambas potências nucleares tinham ideologias diametralmente opostas! O problema é que, atualmente, existe uma hegemonia estadunidense. Por mais que o Fórum de Caracas diga que “outro mundo é possível”, o fato é que a esmagadora maioria dos intelectuais se situa no eixo EUA-Europa Ocidental-Japão, e seriam considerados “de direita”, se esse rótulo ainda fizesse sentido. Esses intelectuais são os que se destacam, que ganham os Prêmios Nobel, e que se utilizam do darwinismo para embasar suas teses. Os intelectuais de esquerda abominam o darwinismo, mas... Bem, é um direito deles.


4 Comments:
Caro Raul,
Quanto a questão do darwinismo ser usado como ideologia "direitista" ou "esquerdista", pouco tenho a acrescentar, senão minha humilde opinião de que, os "lados" políticos tendem, indiscriminadamente, a usar a teoria que bem lhes convir, e interpreta-lás arbitrariamente em seu favor.
Tenho para mim, que a questão Criacionismo x Evolucionismo, no que se refere a padrões científicos-empíricos, já está superada. Não obstante a isso, a discurssão torna-se importante, no momento em que "estamos perdendo a guerra". Parece incoerente, mas, em pleno século XXI, o criacionismo está ganhando cada vez mais espaços.
Dentre outros fatores, creio que isso se deva, a mudanças de atitude das religiões, que ao verem-se perdidas, acharam por bem reconhecer a teoria da evolução, como válida (Igreja Católica), interpretando claro da forma que mais lhes convém.
Além disso, diversas teorias "científicas", como o Design Inteligente, tentam legitimar a existencia de um ser capaz de combinar, segundo eles, uma potência probabilística de 40.000 sobre 10, no que tange a organização de nosso DNA (Alienígenas (!)- DEUS, em última análise). Tentam revestr o criacionismo com "rigor científico", tazendo a baila a tão esperada "razão".
Pinker estava certo em afirmar que "temos quedo de descobrir o que realmente somos"!
No mais, parabéns pelo artigo.
Abraços,
Diogo Condurú
NSU - 4efer, 5210 - rulez
CAro colega,
Parabéns pelo artigo, muito esclarecedor!
Adorei seu artigo, escreve muito bem, não gostaria de me ajudar a fazer um trabalho me dando dicas sobre o assunto.. tenho algumas questoes lançadas.. e to pegando ideias e resposta de varias pessoas, e acho q as suas me ajudariam e muito.::
Por que o Estado tem a preocupação como "estado do bem estar" da população?!
como ocorre a segregação social relacionada a tecnologia e ao trabalho?
Segundo a OTI, o trabalho informal vem aumentando por que?
Explique as causas do desemprego estrutural
Por que os mentores do neoliberalismo agem na periferia?
Faça um comentário sobre a situacao do Brasil do ponto de vista da politica neoliberal
Faça uma analise das mudancas do trabalho no Brasil.
Responda qual lhe for conveniente, de qualqeur forma muito obrigada pela ajuda
Postar um comentário
Links to this post:
Criar um link
<< Home