19.12.05

Tortura de Barbies

Por que este comportamnto está sendo observado? Alguém arrisca uma resposta darwinista para o fato de crainças torturarem bonecas?

Crianças gostam de torturar Barbies, diz pesquisa
da BBC, em Londres

A boneca Barbie é normalmente objeto de tortura das crianças, segundo uma pesquisa feita por uma equipe da Universidade de Bath, na Inglaterra, e divulgada na edição desta segunda-feira do jornal britânico The Times.
Os métodos de mutilação são variados e criativos, incluindo arrancar cabelos, decapitação e queimaduras. Algumas bonecas são inclusive colocadas no microondas e têm suas pernas e braços removidos.
A pesquisa foi realizada como parte de uma análise da influência das marcas na vida de crianças de 7 a 11 anos.
A intenção dos estudiosos não era ter a Barbie como foco, mas eles levaram um susto ao constatar a rejeição, o ódio e a violência manifestados pelas crianças quando elas respondiam perguntas sobre o que achavam da boneca.
Atos de tortura contra a boneca foram repetidamente relatados por crianças de todas as idades envolvidas no estudo, de todos os sexos e em diferentes escolas.Nenhum outro brinquedo ou marca provocou uma reação tão adversa.
Especial
"Normalmente se espera que meninas adorem a Barbie. Mas elas sentem ódio", disse Agnes Nairn, uma das pesquisadoras, ao The Times.
"As crianças não têm uma única Barbie, uma Barbie especial. Elas têm uma caixa cheia delas. As Barbies não são especiais, elas são descartáveis. A Barbie se tornou um ser inanimado. Ela não é mais vista como uma pessoa, uma amiga.
"Pesquisas anteriores sobre violência contra Barbies nos Estados Unidos sugeriam que meninas adolescentes destruíam a boneca porque ela as faziam lembrar da vida adulta em um momento em que as jovens ainda estavam apegadas à infância. Mas Nairn disse que não encontrou sinais disso.
Ela também descartou a idéia de que meninas acima do peso tinham ciúmes da Barbie.
"A idade certa para se ter uma Barbie parece ser 4 anos, mesmo se o estilo da boneca não seja para crianças dessa idade", disse a pesquisadora.

12.12.05

Cérebro usa emoções para tomar decisões que envolvem incerteza

Deu na Folha de hoje (12/12/05):

NEUROCIÊNCIA
Áreas ligadas a sentimentos ficam mais ativasCérebro usa emoções para tomar decisões que envolvem incerteza
RICARDO BONALUME NETODA REPORTAGEM LOCAL

Em uma parceria rara, economistas e pesquisadores do cérebro se juntaram para entender como o ser humano lida com a incerteza na hora de tomar decisões. E descobriram que a necessidade de fazer escolhas em condições ambíguas ativa as áreas cerebrais ligadas às emoções.
Até agora, os pesquisadores tinham se concentrado mais em entender o processo de tomada de decisões ligado ao "risco", a situações com graus diferentes de probabilidade de um resultado.
Faltava entender melhor aqueles casos em que a falta de informação produz incerteza.
Os economistas e neurocientistas decidiram checar o que se passa no cérebro nesses momentos, usando técnicas já clássicas de imageamento das áreas ativadas pelo metabolismo do órgão.
Teoricamente, "as únicas variáveis que deveriam influenciar uma escolha incerta são as probabilidades julgadas de resultados possíveis e a avaliação desses resultados", escreveram Ming Hsu, do Instituto de Tecnologia da Califórnia, e colegas, em artigo na última edição da revista "Science" (www.sciencemag.org).
A incerteza faz com que os eventos sejam classificados como "arriscados" ou "ambíguos" -nesse último caso, quando há falta de evidência para uma avaliação de probabilidade de risco. Na prática, experimentos têm demonstrado que muitas pessoas são mais propensas a apostar em eventos "arriscados" do que em "ambíguos", mesmo que a probabilidade seja a mesma.
Os estudos de imageamento cerebral mostraram que, ao avaliar uma escolha "arriscada" ou uma "ambígua", diferentes áreas do cérebro são ativadas. Ao avaliar a ambigüidade, o cérebro ativou a amígdala e o córtex orbitofrontal.Para os cientistas, a compreensão das bases neurais da escolha em meio à incerteza é importante porque isso é comum em sociedade, com exemplos que vão desde a escolha de uma aposentadoria até a tomada de decisões militares.

1.12.05

A cassação de José Dirceu

Em agosto deste ano, o seguinte artigo foi publicado no Dário do Comércio e na Gazeta Mercantil. Ele analisa a situação do Zé Dirceu sob a ótica da biologia evolutiva comportamental e, agora, com a cassação do ex-Chefe da Casa Civil, é oportuno voltar a lê-lo (e verificar que continua válido).


Trator movido a nitroglicerina
Raul Marinho
Nos dois primeiros anos do Governo Lula, usava-se uma metáfora agro-mecânica para definir José Dirceu: ele seria o “trator” da Casa Civil. Essa metáfora, tida como elogiosa na maioria das vezes, dava a entender que Dirceu era um sujeito que conseguia obter a cooperação de terceiros para que o governo atingisse seus objetivos – “passando por cima das cercas e buracos”, se fosse o caso. O que o deputado Roberto Jefferson fez com suas denúncias sobre o “mensalão” foi, mantendo a linha original de metáforas agro-mecânicas, dizer que o ex-Chefe da Casa Civil era um trator que não usava como combustível o pouco inflamável óleo diesel, mas nitroglicerina. E a atual crise política nada mais seria do que alguns respingos deste inusitado combustível no solo, explodindo o próprio trator, e ferindo os que a ele estavam próximos.
Não é novidade em Brasília que Dirceu não é (nem nunca foi) uma pessoa amplamente querida, nem entre os aliados (grande parte do PT, inclusive), nem entre a oposição. Sejamos francos: à exceção do presidente Lula e mais uma meia-dúzia, ninguém gostava (ou gosta) de Dirceu, principalmente no Congresso. Esse não-gostar generalizado foi o que fez, a se confirmarem as denúncias, que o ex-Chefe da casa Civil exercesse seu poder pela força – no caso, econômica. Ninguém precisa colaborar com alguém que lhe paga diretamente: o jornaleiro não precisa gostar de você para lhe vender o jornal do dia, basta que você o pague. O problema é que, por mais corrupta e venal que seja grande parte da classe política no nosso país, as relações políticas são bem mais complexas que as puramente comerciais.
Em espécies com cérebros mais desenvolvidos, como os primatas (onde o Homo sapiens se enquadra), a evolução acabou criando um complexo sistema de emoções para regular o altruísmo recíproco. Chimpanzés, gorilas e seres humanos agem de forma cooperativa (ou não) porque são movidos por sentimentos – ou seja: porque gostam ou desgostam de outros indivíduos –, não porque racionalizem que a cooperação mútua é mais ou menos eficiente. Ocorre que esses sentimentos surgem em decorrência de relações altruisticamente recíprocas: nós somos amigos de quem gostamos, e gostamos de quem não nos trai.
Mas além da cooperação movida por sentimentos, existe uma outra alternativa, que é a cooperação forçada. Um gorila silverback (o macho dominante de um bando de gorilas, que tem esse nome por ter as costas prateadas) sempre é o maior indivíduo do bando, e usa da força bruta para manter seu poder. O problema é que, quando o silverback envelhece e perde sua força, um membro mais forte toma o poder e expulsa o antigo líder do bando. Sozinho, o ex-chefe acaba perecendo.
Entre humanos, além da força física, desenvolveu-se também a coerção moral e, muito mais recentemente (em termos evolutivos), a coerção econômica. Mas, de forma análoga à verificada entre os gorilas, esta forma de poder também é muito instável, se comparada à exercida por meio dos sentimentos provenientes do mecanismo do altruísmo recíproco. Laços de amizade baseados em sentimentos, forjados por anos de comportamento mutuamente cooperativo, são muito mais estáveis que a cooperação obtida pela força bruta, seja ela econômica ou física.
A atual crise decorre justamente da inabilidade do ex-Chefe da Casa Civil na gestão dos relacionamentos altruisticamente recíprocos. O “trator” José Dirceu conseguia a cooperação por meio da força bruta, não da amizade e dos sentimentos construídos pelo comportamento mutuamente cooperativo. Muito pelo contrário: os deputados beneficiados pelo “mensalão” podiam até votar com o Governo porque haviam sido pagos para isso, mas o dinheiro não os fazia gostar de quem os pagava (temo, inclusive, que tinha um efeito oposto nesse sentido). Deu no que deu.